[Frases] A Rainha - Kiera Cass

Ainda assim, um indício de sorriso em seu rosto bastava para me paralisar. Não me importava de não ver mais que isso. - Capítulo 1

Era verdade: eu fazia uma ideia de quem ele era. Ainda assim, à medida que acompanhava sua rotina, me dava conta de que havia muito mais nele do que eu vira no Jornal Oficial. Mas essa descoberta não me intimidava.Pelo contrário, se tratava de um mistério que eu estava empolgada para desvendar.

Chegamos a um par de portas abertas, e mesmo do corredor dava para sentir o ar fresco. Nada além de velas iluminava a sala, e achei que meu coração explodiria de tanta felicidade. Cheguei até a tocar meu peito para ver se tudo ainda estava intacto.

Eu não conseguia parar de sorrir à medida que me aproximava. Estávamos a sós. Ele tinha preparado aquilo para mim. Era a realização de todos os meus sonhos de menina.

— A minha parte favorita do trabalho é a estrutura. A ordem. Alguém põe um problema diante de mim, e eu encontro um modo de resolver. Não gosto de coisas em aberto ou inacabadas, embora geralmente isso não seja um problema para mim. Sou o príncipe, e um dia serei rei. Minha palavra é lei.

Apertei os lábios e desviei o olhar. Eu assistiria o nascer do sol ao lado dele se me pedisse.

Ele tomou fôlego. E então riu. Uma gargalhada profunda e autêntica, do tipo que não conseguimos interromper mesmo se quisermos. Então ele era capaz de rir. O riso estava lá, enterrado sob todas as outras coisas que ele precisava sentir, pensar e controlar. Ele passou a fazer muito mais sentido, e a partir de então eu valorizaria ainda mais seus sorrisos. Cada um deles devia dar tanto trabalho.

— Não. Você não precisa ser nada que não quiser. Gosta de ordem? Então planeje, prepare. Imagine o rei, o marido e o pai que quer ser e faça tudo o que for necessário para chegar lá.

Era verdade. Ele sempre foi tudo o que eu desejei. Eram as coisas que vinham junto que me assustavam.

Tentei não me assustar com os pensamentos na minha cabeça. Porque se precisasse escolher entre Clarkson e mim, não sei se seria capaz de me colocar em primeiro lugar. Ele era o príncipe, e sua vida tinha um valor inestimável para o país. Mais que isso, tinha um valor inestimável para mim.

Na minha cabeça, tentei transformar aquelas palavras em algo romântico, mas soavam mais como se ele se sentisse obrigado. Ainda assim, se quisesse, ele poderia ter ido comer com as outras. Em vez disso, escolheu ficar comigo.

O mundo parecia apenas uma sombra de si mesmo, e eu me arrastava por ele, fria e cansada.

— Você precisa ser impecável, entendeu? Precisa ser uma candidata exemplar. Até pouco tempo atrás, não achava que teria de lhe dizer isso, mas agora parece que sim. Não dê a ninguém motivos para duvidar da sua competência.

É estranho descobrir o quanto você é importante para pessoas que não sabia que se importavam tanto. Ou descobrir que a sua lenta desintegração pode se refletir em outras pessoas numa escala menor.

A única outra vez em que o vira nervoso pra valer fora na noite em que flagramos a briga de seus pais; foi então que descobri que seu breve acesso de loucura tinha sido uma maneira de demonstrar o quão importante ambos eram para ele. O tanto que ele se chateou comigo… Não era meu jeito favorito para ele demonstrar que eu era importante. Mas se ele só conhecia esse jeito, fazia sentido.

Primeira: se Clarkson se preocupava tanto comigo, eu ia parar de me fazer de vítima. Dali para a frente, seria uma competidora. Segunda: eu jamais daria a Clarkson Schreave um motivo para ficar irritado daquele jeito de novo.
Seu mundo parecia um furacão.
Eu seria o seu centro.

Ele tinha dito que gostava de mim. Ele me pedira para não desistir. Ele podia ter se afastado, mas depois retornou. Era o bastante para me dar esperança.

Ele conduziu, me puxando para si. Pensei que talvez fosse escorregar ou tropeçar, mas não sei como minhas mãos foram parar em seus cabelos, e os agarrei com a mesma intensidade que ele me segurava. Ele se curvou e me aninhei em seu corpo, feliz e surpresa ao descobrir como nos encaixávamos bem.
Aquilo era a felicidade. O amor. Tantas palavras que a gente ouve falar ou lê a respeito, e agora… agora eu sabia.

Me beijou mais uma vez e saiu, não sem antes parar diante da porta e lançar um último olhar para mim.

A promessa de vê-lo novamente era a única coisa que me mantinha inteira.

— Você salvou minha vida — pausei, sem fôlego. — Eu amo você.
Várias vezes eu havia imaginado como seria dizer aquelas palavras, mas nunca daquele jeito. Ainda assim, não consegui me dar ao luxo de me arrepender: meu cérebro começou a apagar enquanto os sons dos guardas atacando ecoava em meus ouvidos.

Ele beijou minha testa, ali mesmo na ala hospitalar, onde todos podiam ver. Todas as minhas preocupações desapareceram, ao menos naquele instante.

— Você será a única coisa no mundo realmente minha. E vou colocá-la em um pedestal tão alto que será impossível alguém não te adorar.

Nossas cabeças se tocaram e ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu não conseguia acreditar que aquilo era real. Ele tinha dito todas as palavras que eu esperava ouvir desde sempre: rainha, esposa, adorar. Os sonhos que eu abrigara no meu coração estavam se tornando realidade.

Voltei a me aninhar na cama assim que ele saiu, mas sabia que seria incapaz de retomar o sono. Como poderia, com o coração batendo duas vezes mais rápido e a cabeça repassando todas as possibilidades do nosso futuro?

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