Trecho de Marília de Dirceu - Parte I - Lira II (+Análise)

"Os teus compridos cabelos,
Que pelas costas ondeiam;
São os que de Apolo mais belos
Mas, de loura cor não são;

Têm a cor da negra noite;
E com o branco do rosto
Fazem, Marília, um composto
Da mais formosa união.

Tem redonda e lisa testa;
Arqueadas sombrancelhas;
A voz meiga, a vista honesta;
E seus olhos são uns sóis

(...)

Na sua face mimosa;
Marília, estão misturadas;
Púrpuras folhas de rosa;
Brancas folhas de jasmim;

Dos rubis mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os teus dentes delicados;
São pedaços de marfim.

Observações (retiradas do livro "Marília de Dirceu")
Os versos referentes à boca e aos dentes de Marília, têm relevante significado, pois são traços que a diferenciam das outras mulheres de Vila Rica.
Numa época em que a legião de desdentados fazia parte do cotidiano, um referencial de beleza, seriam os dentes saudáveis e brancos, o que não significava que ela cuidasse deles.
Não se dava importância à higiene bucal naquele tempo; aliás, não se dava importância ao asseio em geral.
Se Gonzaga assim a descreveu tantas vezes é porque Marília possuía "dentes alvos, brancos nevados, como finas pérolas, cristalinos e delicados marfins", numa boca risonha, breve engraçada"
Na composição do rosto, o detalhe da penugem do buço, comum às mulheres da época, que não se depilavam, é própria do alto índice de testosterona que as morenas carregam em sua herança genética.
Por fim, Marília, tal como as outras mulheres de sua linhagem, possuía extrema beleza encantadora e fascinante!

Análise Literária (feita por mim)
Aqui nessa lira, Gonzaga descreve sua amada menina sob sua real aparência, sem idealizá-la, opondo-se então, à lira I.
O fato de mencionar o deus Apolo, remete à valorização do clássico (cultura greco-romana), muito presente nas obras árcades, de diversos autores.
Embora o comum no Arcadismo seja a ordem direta das orações, nessa II Lira, verifica-se a presença de um hipérbato (figura de linguagem em que a oração está na ordem inversa), sendo que isso está presente no seguinte verso:.
"São os que de Apolo mais belos" 
No qual, a ordem direta seria:
"São mais belos que os de Apolo"
Quando o autor diz "Seus olhos são uns sóis", essa metáfora  remete ao fato da musa ter olhos brilhantes, uma vez que o sol irradia extrema luz, assim como no verso "Têm a cor da negra noite", é uma metáfora a qual faz menção aos cabelos morenos e chamativos de Marília.

As rimas ainda são predominantes, a julgar que esta é uma obra de gênero lírico, e, entretanto, nesta parte, nota-se a predominância de rimas ricas (palavras de classes gramaticais diferentes)

  • Rima pobre: Composto & Rosto = Ambos são substantivos
  • Rimas ricas: Cabelos & belos (substantivo/adjetivo), são & união (verbo/substantivo), honesta & testa (adjetivo/substantivo)
As rimas são utilizadas principalmente para não só causar um efeito de musicalidade, mas também para dar uma melhor impressão sobre a personagem descrita, sendo que com a colocação de alguns adjetivos como "belo", "mimosa", "honesta", e de orações como "púrpuras folhas de rosa" e "brancas folhas de jasmim", reforçam o caráter doce e meigo, contido em Marília, e narrado pelo célebre autor e ouvidor, Thomas Antonio Gonzaga.

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